*Por Ari Riboldi
Cusparada
Grande quantidade de cuspo ou ato de expelir uma quantidade de cuspo. A grafia correta é cuspir (e não, guspir), ação de expelir saliva, cuspo ou catarro pela boca. Simbolicamente, representa um grande menosprezo, desdém profundo contra alguém.
Do verbo latino “cuspuere”, escarrar, cuspir.
Escárnio
Desprezo, desdém, ironia, sarcasmo, zombaria, mofa, troça, menosprezo.
Possivelmente, termo de origem germânica, de “skairnjon”, escarnecer, caçoar.
Escarro
Ato de escarrar, de expectorar, de expelir sangue ou escarro pela boca. Expectoração, ao lançar pela boca secreções provenientes da traqueia, brônquios ou pulmões.
Do latim, palavra deriva do verbo “scrare”, cuspir, escarrar, expectorar.
Escarradeira, objeto de luxo e de etiqueta
Recipiente próprio para receber o escarro. O mesmo que escarrador ou cuspideira. Fazia parte do mobiliário das famílias nobres até o século XIX. Um recipiente do tamanho de um prato, relativamente fundo e com um furo no meio, normalmente feito de porcelana. Bem decorada, seu lugar por excelência era a sala de estar, sempre pronta para oferecer conforto a qualquer visita que dela necessitasse para cuspir um pigarro ou simplesmente, a partir do hábito adquirido, pudesse encontrar alívio sem transgredir a boa etiqueta da época.
Cuspido e escarrado
No meio popular, expressão para retratar grande semelhança física: é a cara do pai (ou da mãe) cuspida e escarrada. O povo tem dificuldade de se apropriar termos eruditos, mais elitizados. Em vista disso, faz arranjos linguísticos que até parecem grosseiros, embora não seja o seu intuito. No caso da expressão acima, há varas versões sobre sua origem.
a)Esculturas do Renascimento - A mais difundida diz que se trata de corruptela, sendo o correto dizer-se: “esculpido em Carrara”. O mármore de Carrara, região de Toscana, na Itália, é considerado um dos mais lindos da terra, com o qual foram esculpidas as mais perfeitas esculturas do Renascimento. Eram estátuas do mesmo tamanho de um ser vivo. De tão perfeitas, só lhes faltava a capacidade de falar;
b) Estátuas de carne e osso - Para alguns estudiosos, no entanto, a expressão original seria “esculpido e encarnado”, como referência à perfeição das imagens de santos, ou seja, esculpidas e encarnadas, como se fossem a reencarnação do próprio corpo beatificado. Encarnado, aqui, guarda o sentido original, ou seja, feito de carne.
c) Ato de higiene e criação de uma nova vida - Outros, ainda, afirmam que a expressão é essa mesma falada pelo povo simples e já consagrada: “cuspido e escarrado”. Defendem essa versão baseados no princípio de que, em alguns povos, cuspir significava, além de higiene, um ato de criação, de geração de nova vida.
Qual será a verdadeira procedência? Não há como indicá-la, já que não há provas ou documentos que atestem qualquer uma delas. São fenômenos próprios da linguagem popular, passando de boca em boca, de ouvido em ouvido, ao longo dos tempos.
Há alguns ditados que reproduzem esse mesmo sentido: Filho de peixe, peixinho é; Filho de tigre nasce pintado; Tal pai, tal filho; Cara de um, focinho do outro.
Ditado popular
Gato que nasce em forno não é biscoito.
A gata, na hora de dar cria, procura um local seguro para seus filhotes. É comum que se refugie num paiol, embaixo da casa, no sótão, na lareira, na churrasqueira, dentro do forno de pedra ou tijolo de antigas casas de zonas rurais. Era o forno para cozer o pão, biscoitos, batata doce, amendoim e outras iguarias. O que fazer, na hora de colocar lenha e atear fogo para aquecer o forno? Não dava para adiar por dias até os gatos crescerem e saírem. O pão devia ser feito e cozido, para saciar a fome. A dona da casa retirava de lá os gatinhos e os colocava em outro local seguro, para que a mãe gata os amamentasse até se tornarem independentes.
O ditado diz respeito às origens de uma pessoa. É muito frequente que os filhos, por influência e proximidade, sigam o exemplo dos pais e também exerçam a mesma profissão. No entanto, não é uma regra. Há, inclusive, grandes surpresas, em que os filhos, por talento ou influência externa, seguem caminhos totalmente diferentes, alheios ao meio em que nasceram e cresceram.
Versos Íntimos
Augusto dos Anjos (1884-1914)
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!